Herdade do Cynsige

Kensington é o distrito principal do Bairro Real de Kensington e Chelsea («Royal Borough of Kensington and Chelsea» – o bairro disfruta do estatuto de «real» devido à localização do Palácio Real de Kensington e porque foi nesta residência da coroa que nasceu a Rainha Dona Vitória [1837 – 1901] em 1819) que ocupa a parte ocidental do centro de Londres.

O coração comercial do distrito é a Rua Alta de Kensington («Kensington High Street» - em inglês antigo, a palavra «high» significava algo excelente, ou de grau elevado e, com o tempo, a via principal de comércio e habitação em muitos locais adquiriram esta designação) que é o eixo este-oeste mais significativo. Uma parte grande no leste do distrito é ocupado pelo Jardim de Kensington («Kensington Gardens» - antigo recinto privado do Palácio Real) onde fica:

(I) o Monumento de Alberto («Albert Memorial» - edificação comemorativa ao consorte da Rainha Dona Vitória, o Príncipe Dom Francisco Augusto Carlos Alberto Emanuel de Saxónia-Coburgo-Saalfeld [Coburgo, 1819 – Windsor, 1861]);

(II) a Galeria do Serpentino («Serpentine Gallery» - alusiva ao formato do lago adjacente e um espaço gratuito de entrada para exposições de arte contemporânea);

(III) o Monumento de Speke (em comemoração ao descobridor João Hanning Speke [Buckland Brewer {«Cervejeiro da Pastagem Veadeira»}, 1827 – Neston Park{Parque da Quinta do Promontório}, 1864].

Em Kensington do Sul («South Kensington»), entre as vias de Portão da Rainha («Queen’s Gate»), Rua das Exibições («Exhibition Road»), Rua de Cromwell («Cromwell Road») e Viés de Kensington («Kensington Gore»), é a zona carinhosamente chamada «Albertópolis» e onde ficam:

(a) o Colégio Imperial de Londres («Imperial College London» - uma universidade investigacional nos campos de medicina, ciências e tecnologias fundada em 1907);

(b) o Colégio Real de Música («Royal College of Music» - um dos conservatórios iminentes no Reino Unido, funado em 1882);

(c) o Salão Real de Alberto («Royal Albert Hall» - imponente salão de espectáculos, inaugurado em 1871 pela Rainha Dona Vitória, em memória dos variadíssimos apoios às belas-artes concedidos pelo falecido Príncipe Consorte Alberto);

(d) o Museu de História Natural («Natural History Museum» - uma instituição museológica de entrada grátis que abriga cinco ramos das ciências naturais – botânica, entomologia, mineralogia, paleontologia e zoologia), fundado em 1881;

(e) o Museu de Vitória e Alberto («Victoria and Albert Museum» - o maior museu global das artes aplicadas e decorativas, como também do desenho, fundado em 1852);

(f) o Museu da Ciência («Science Museum» - fundado em 1857).

O centro de Kensington e Kensington do Sul também abrigam muitas embaixadas e consulados internacionais. O solar de «Chenesitone» foi listado no Livro «Domus Dei» (Casa de Deus) («Domesday Book» - a Grande Vistoria vitoriosa encomendada por Guilherme Conquistador (Rei Dom Guilherme I [1066 – 1087]) apos sua tomada forçada do trono inglês em 1066 e acabada em 1086 sobre todos os bens tributáveis no Reino de Inglaterra e algumas partes do Principado de Gales) e na língua anglo-saxónica, então predominante, significa «herdade de Chenesi», ou mais provável, de Cynsige que é um nome próprio e apelido, cuja acepção é «Vitória Real». A propriedade foi criada no princípio do 8.º século por um tal Cynsige, durante o período de absorção do pequeno Reino dos Middel Seaxe (604(?) – 725 [mais tarde, «Middlesex» - «Saxões Medianos»]), pelos maiores Reino dos Miercna (527 – 918 [mais tarde, «Mercia» - «Arraianos»]) e Reino dos Eastseaxna (527 – 825 [mais tarde, «Essex» - «Saxões Orientais»]), transformando-lho num condado.

A herdade foi uma das várias centenas de propriedades expropriadas dos donos anglo-saxónicos e concedidas pelo Rei Dom Guilherme a Godofredo de Montbray (1015[?] – 1093), bispo de Coutances na Normandia, membro de seu círculo íntimo de conselheiros e um dos homens mais ricos da Inglaterra pós-conquista. Ele concedeu o arrendamento de Chenesitone ao seu seguidor, Aubrey de Vere I, que retinha o solar em 1086, segundo o Domesday Book, como arrendatário, o bispo mantendo-se como suserano. O herdeiro do bispo, Roberto de Mowbray (1054[?] – 1125), rebelou-se contra o Rei Dom Guilherme II (1087 – 1100) e seu vasto baronato feudal foi confiscado pela Coroa.

Aubrey de Vere I tornou-se assim um inquilino-chefe e arrendatário directo do rei após 1095, o que aumentou sua posição na hierarquia da Inglaterra feudal. Ele concedeu a igreja da herdade (hoje a igreja anglicana de Santa Maria do Abade («Saint Mary Abbot’s») e uma propriedade adjacente ao Convento de Abingdon (versão actual do nome saxónico «Abbatun» - herdade do Abba [nome próprio]) que ficava no Condado de Oxford, a pedido de seu filho mais velho, Godofredo, no leito de morte. À medida que a família dos de Vere se tornaram condes de Oxford, seu principal solar em Chenesitone passou a ser conhecido como Corte do Conde («Earl's Court» - hoje uma zona central do distrito), pois a família não era residente no solar e seus negócios senhoriais não eram conduzidos no grande salão, mas em um tribunal.

Afim de se diferenciar, a nova propriedade conventual ficou conhecida como Kensington do Abade («Abbot's Kensington» e a já referida igreja de Santa Maria do Abade). Ao longo dos séculos e com a «matização» do anglo-saxónico original com o francês medieval da hierarquia normanda, o nome foi-se misturando e no Medieval Tardio já era conhecido como Kesyngton (documento de 1396). O Quartel de Kensington («Kensington Barracks» - de regimentos de cavalaria) original, construído ao lado do Portão de Kensington («Kensington Gate» - a entrada principal do Palácio Real) no final do século XVIII, foi demolido em 1858 e os novos quartéis foram construídos na Rua da Igreja de Kensington («Kensington Church Street» - hoje uma via repleta de antiquários e galerias de arte).

O foco socioeconómico do distrito é Kensington High Street, uma movimentada via comercial com muitas lojas, tipicamente de altíssima gama e por traz da qual fica o complexo de edifícios municipais. A rua foi declarada a segunda melhor rua comercial de Londres em Fevereiro de 2005 devido à sua grande variedade e número de lojas. No entanto, desde Outubro de 2008, o comércio aqui tem enfrentado a concorrência do gigantesco centro comercial de «Westfield» (Campo Oeste), no bairro vizinho de «Hammersmith and Fulham» (Ferreiro e Ribeira de Fulla [nome próprio saxónico]), que fica na zona adjacente de «White City» (Cidade Branca).

O segundo centro económico do distrito é South Kensington, onde várias ruas estão repletas de pequenas e médias lojas e escritórios de empresas de variadíssimos serviços, tudo em torno da estação de metro do mesmo nome. A norte desta zona fica então Albertópolis, cujo foco educacional atraiu o local para o estabelecimento das instituições de ensino estatais francesas, nomeadamente, a Aliança Francesa, o Cinema Lumière, o Consulado Francês, o Instituto Francês e o Liceu Francês; com todo o comércio gastronómico e literário francês em volta, deu-se a alcunha à zona como o 21º arrondissement de Paris. Os limites geográficos tradicionais do distrito de Kensington não são bem definidos; em particular, a parte sul de Kensington tem uma fronteira conflituante e complexa com o distrito de Chelsea (outra herdade antiquíssima), sejam usadas definições eleitorais ou postais, e ambas têm património arquitectónico semelhante, devido à época idêntica da expansão urbana oitocentista.

A oeste, uma fronteira é claramente definida pela linha do antigo Riacho Oposto («Counter Creek»), hoje delineado pela linha ferroviária de Londres Ocidental («West London»), aberta em 1844. Ao norte, a única linha de fronteira óbvia é a Avenida do Parque de Holanda («Holland Park Avenue»), traçada em fases na primeira metade do século XIX, ao norte da qual está o distrito de Colina de Cnotta («Notting Hill» - outro nome próprio saxónico e mais outra herdade pré-normanda), cuja zona até à Estrada do Templo Pagã («Harrow Road» - uma via originalmente pré-romana) é geralmente classificada como Kensington do Norte («North Kensington»). No centro-leste está o grande parque público de Jardins de Kensington («Kensington Gardens» - o antigo recinto do Palácio Real) que é contíguo ao seu vizinho mais a leste, Parque da Hida («Hyde Park» - do nome saxónico, «hid», da unidade de terreno então considerado suficiente para manter uma família, tradicionalmente 49ha.)

A outra área verde principal em Kensington é o Parque de Holanda («Holland Park» - em memória da antiga herdade e solar [destruído num bombardeamento alemão em 1940] dos Condes de Holanda [área extremamente rasa no sul do condado de Lincólnia), que fica do lado norte no extremo oeste da Rua Alta de Kensington. Suplementando estas áreas grandes de verdura, muitas ruas residenciais são intervaladas com pequenas praças ajardinadas cujo acesso é normalmente exclusivo às habitações imediatamente em volta. Fora das principais vias de comércio, os subdistritos de Kensington do Sul e Corte do Conde também consistem em grande parte de edifícios e moradias habitacionais.

Em contrapartida, durante o 20º século, as áreas de Kensington do Norte e Kensington Ocidental progressivamente perderam a sua atracção e procura abastecida, tornando-se em zonas de grandes construções de habitação social, incluindo arranha-céus de pouco valor arquitectónico. Devido ao altíssimo valor do imobiliário londrino estas áreas têm beneficiado durante as últimas cinco décadas de cada vez mais gentrificação, resultando actualmente numa mistura social vibrante e procurada. A população estimada aproximadamente de 156.000 em 2019, numa área geográfica meramente de 12km², torna o Bairro Real de Kensington e Chelsea o município mais densamente povoado do Reino Unido (umas 13.000 almas/km²).

Esta alta densidade geralmente surgiu graças à gradual subdivisão das muitíssimas grandes casas geminadas das eras georgianas e vitorianas (habitualmente de quatro a seis andares) em apartamentos.